Região terminou 2013 com seu melhor desempenho, com 40,64% de participação no total comercializado no País; apesar da boa notícia, concessionários temem retração
O mercado nordestino tem sido o principal patrocinador dos resultados positivos do mercado de motocicletas. Em dezembro passado, as vendas de motos no Nordeste bateram recorde: 40,64% de participação no total de vendas no Brasil, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). A evolução da região tem sido consistente. Em 2003, por exemplo, apenas 25,90% das vendas de veículos duas rodas no País vinham do Nordeste.
Leia também: Motos já são maioria nas regiões Norte e Nordeste
O
crescimento consistente tem a ver com a demanda reprimida e com o
aumento da renda média na região. O parcelamento da compra e o valor de
uma moto é um facilitador para quem sonha ter o primeiro veículo.
Segundo simulação feita pelo iG no site do Consórcio
Honda, quem mora na Bahia pode ter uma CG 150 (modelo Titan ESD), a mais
vendida no País em 2013, com o pagamento de 72 cotas de R$ 146,97. Uma
Honda Biz 100KS sai por menos: 72 parcelas de R$ 96,32.
CG 150 da Honda é lider de vendas no país, com 47,08% do mercado em 2013.Mas
a expansão do mercado nordestino, que tem sido um alívio para as
fabricantes – as vendas totais de motos em 2013 tiveram uma retração de
7,44% – pode estar com os dias contados. Embora o consórcio seja responsável por 40% das compras de motocicletas
no Nordeste, o aperto no crédito que tem alimentado a boa fase das
concessionárias pode interromper a trajetória de crescimento. A mesma
restrição do crédito que já acertou em cheio o mercado de automóveis e o
setor de motocicletas no Sudeste pode estar começando a chegar por lá.A
terceira maior cidade do estado da Bahia, Vitória da Conquista, tem
cerca de 330 mil habitantes e fica a seis horas da capital, Salvador. Lá
o mercado já dá pistas de que vai começar a esfriar, segundo Victor
Vinícius Boaventura Oliveira Almeida, gerente administrativo da Rodaleve
Motors, concessionária do sudoeste baiano.“Nos anos anteriores o
crescimento foi bem maior que em 2013. Possivelmente terminamos 2013
com uma redução de 10% nas vendas frente a 2012”, diz o gerente.Mesmo
contando com o braço forte do maior consórcio do País, o Consórcio
Nacional Honda, a limitação de crédito já está estrangulando o comércio
local. “Houve uma época em que o banco financiava 100% da moto. Desde
que as exigências começaram a aumentar viemos nos mantendo, mas esse ano
o mercado pesou.” Lá, Almeida vende, em média, 100 motocicletas por mês
– dessas, entre 50 e 70 saem por consórcio.Efeito mototáxiAlmeida
considera as vendas tímidas. Principalmente se considerar outra lojas
da rede como a unidade de Feira de Santana que, com o dobro de
habitantes, vende quase três vezes mais. Lá, a vantagem está no
mototaxi. “Seria formidável se os mototáxis fossem permitidos aqui em
Conquista também, mas a prefeitura é bem inflexível.” A prova do efeito
mototaxi fica bem clara em Guanambi, onde mesmo com 84 mil habitantes, o
volume de venda é semelhante ao de Vitória da Conquista, onde a
população é quatro vezes maior.No entanto, pode haver um revés em
vender tanto para os mototaxistas. Tadeu Vasconcelos, gerente comercial
de duas concessionárias Yamaha na Paraíba, conta que esse é o público
com mais dificuldades em manter as contas em dia. “Eles se endividam,
não conseguem mais tomar crédito, param de pagar a moto e ainda ficam
sem poder de renovação do veículo”, diz.Em outras palavras, há
uma frota começando a envelhecer nas ruas paraibanas, sem a previsão de
reposição. “O mercado está um pouco saturado.”
Também têm a chegada das mulheres neste mercado. Na Motosul, em Teixeira de Freitas, na Bahia, o gerente comercial Ademilson Vilas Boas diz ver uma avalanche de mulheres em busca das motos de baixa cilindrada. Elas ainda não representam a maior parte das vendas, mas a aceleração é crescente.
Fazer 150, da Yamaha: 10.706 unidades vendidas
Mesmo com essa característica, lá a restrição de
crédito também começa a apertar o mercado. No entanto, Vilas Boas também
vê alguma saturação nas ruas. “Para se ter ideia, em agosto do ano
passado, que foi um mês ruim, vendemos o mesmo número de motos que em
1994, durante todo o ano”, diz. “As vendas já subiram demais. É difícil
continuar nesse ritmo.”
Zona rural
A
escolha do nordestino pela moto tem uma outra justa razão: boa parte
desses veículos tem como destino a zona rural. Na roça, os cavalos foram
e têm sido trocados por motocicletas.
Vasconcelos
coordena duas lojas da Yamaha – uma em Mamanguape e outra em Guarabira,
cidades com 42 mil e 56 mil habitantes, respectivamente. Ele destaca que
ao contrário dos mototaxistas, os clientes da zona rural – que
representam 70% do total – tendem a ser adimplentes e renovam mais
frequentemente suas frotas.
Mesmo com essa experiência positiva
com seus clientes rurais, o gerente já enxerga um mercado mais retraído
na região. “Outros colegas de outras cidades aqui no entorno, estão
sentindo uma redução de 25% a 30% nas vendas no ano passado.” Em 2013, a
unidade de Guarabira, exemplo, vendeu em média 35 motos por mês, mas
Vasconcelos vê potencial para 15 motos por mês.Mercado mais democrático
Na avaliação do presidente da Fenabrave, Alarico Assumpção, é justamente essa opção rural que fortalece o mercado do Norte, Nordeste e, no futuro, do Centro-Oeste. “Hoje a moto substitui a tração animal”, explica.
O avanço na renda média do cidadão também faz
toda a diferença. A própria Honda entende que esse é um dos principais
fatores de impulsão do consumo “Clientes que até então não tinham acesso
a veículos motorizados passaram a ter condição de adquirir sua primeira
motocicleta”, afirma Alexandre Cury, gerente geral Comercial da Moto
Honda da Amazônia.
A motocicleta acaba sendo a primeira aquisição de
algum bem de maior valor. “Uma moto de baixa cilindrada custa entre R$ 6
mil e R$ 7 mil. Com esse dinheiro, você consegue um carro antigo e
deteriorado”, afirma. “No ano passado, o preço médio de uma moto foi de
R$ 7,4 mil e de um carro foi R$ 37,9 mil. A diferença é enorme", diz
Cury.
No entanto, Assumpção pondera que esse processo de migração
de classe já fez seu maior movimento. Daqui para frente, o crescimento
tenderá a ser incremental. “Com os juros crescentes, o mercado fica
comprometido por que o dinheiro acaba direcionado às prioridades.”A Honda, no entanto, não vê o movimento como um boom, mas sim como um “amadurecimento” do mercado. “Trata-se de um mercado com grande potencial. As boas vendas nessas regiões devem perdurar. Além disso, a mudança do cenário do ambiente rural, com a substituição dos tradicionais animais de transporte por motocicletas também seguirá contribuindo para as vendas”, aponta Assumpção.
A alta de juros deverá levar ainda mais clientes para as cartas de consórcio, principalmente no Centro-Oeste. “Lá o grande negócio são os grãos. O agronegócio tem dado sustentação ao Brasil neste mercado”, afirma.