O relato de pais e médicos e pesquisas sobretudo americanas chamam a
atenção para um hábito comum no Carnaval, mas arriscado: tomar bebida
alcoólica com energético. Segundo o cardiologista Luciano Vacanti, a
mistura potencializa o risco de arritmias, pois as duas substâncias
“irritam” o músculo do coração (o miocárdio). Ele afirma, ainda, que há
casos descritos nos Estados Unidos de adolescentes que, após ingerirem
energéticos, desenvolveram taquicardias que precisaram ser revertidas
nos hospitais.
O médico Anthony Wong, chefe do Ceatox (Centro de Assistência
Toxicológica) do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas (SP),
relata que este é um hábito que está virando uma epidemia mundial. “Pior
que quanto mais jovem é a pessoa menos controle ela tem sobre as
bebidas alcoólicas. É necessário tomar uma atitude de controle por parte
das autoridades com o crescente abuso dessa associação”, opina.
Há vários motivos apontados pelos consumidores para se misturar as
bebidas. Entre eles, disfarçar o gosto do álcool (principalmente no caso
de destilados), além de esticar a balada. Por ser estimulante, o
energético carrega o mito de anular os efeitos depressivos do álcool, o
que é verdade em parte porque a bebida reduz a sensação de sonolência,
mas os reflexos continuam mais lentos sob o efeito do álcool.
Percepção alterada
Pesquisas vêm comprovando que o consumo de álcool com energéticos pode
estimular o alcoolismo, dar mais disposição para beber (a pessoa fica
mais tempo em uma balada ou bar bebendo, por exemplo) e tornar o
indivíduo mais suscetível aos problemas relativos ao consumo de álcool
(machucam-se mais ou sofrem mais acidentes, necessitam de ajuda médica
ou enfrentam problemas sexuais).
Alexandre Clemente Chame, de 36 anos, percebeu alguns desses sintomas
após abusar na dose de energéticos em uma casa noturna. “Não costumo
beber destilado, mas como meus amigos tinham comprado uma garrafa,
resolvi tomar a bebida com energético para acompanhar. Percebi
principalmente que fiquei até mais tarde na balada, costumo ir embora
mais cedo, e acabei esticando até umas cinco da manhã. Daí bebi bem mais
que de costume. No dia seguinte, a ressaca foi pior. Na hora até
pensei: ‘esse negócio’ ajuda a não bater o carro na volta porque eu
parecia estar mais desperto, mas depois percebi que poderia ter sido até
pior, pois eu achava que estava normal para dirigir”.
Um dos maiores riscos dessa combinação é realmente o de mascarar os
sintomas. De acordo com a psicoterapeuta Ilana Pinsky, professora do
Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo), não sentir os efeitos do álcool pode parecer bom, mas não é. É
uma maneira de tapear o que o corpo está sentindo. “A pessoa não fica
tão bem quanto pode pensar, pode dirigir de maneira arriscada, e os
órgãos do corpo são afetados da mesma maneira, ela sentindo ou não”.
Advertências
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, a venda
de energéticos é autorizada no Brasil desde 1998, após a avaliação da
agência sobre a segurança dos produtos. “Não existe nenhuma proibição
quanto a comercialização dessas bebidas por parte da Comunidade Europeia
e as mesmas estão dispensadas de registro na Anvisa”.
O que diz o fabricante
O fabricante de um dos energéticos mais populares do mercado, o Red
Bull, diz que, “em relação ao uso associado ao álcool, não há nenhum
indício de que o Red Bull® Energy Drink tenha qualquer efeito (positivo
ou negativo) associado ao seu consumo. Isto foi confirmado pela
Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês),
em comunicado de 2009, que concluiu não haver interação entre a taurina,
a glucoronolactona, a cafeína e o álcool, mesmo durante atividade
física”.
A empresa também alega que um consumo moderado de cafeína (menos de
400 mg por dia, o que equivalente a 5 latinhas do energético) não afeta
negativamente a saúde cardiovascular. E completa: “o Red Bull® Energy
Drink é vendido em mais de 160 países porque autoridades de saúde do
mundo todo concluíram que o mesmo é de consumo seguro”.
No entanto, há requisitos específicos de composição: taurina: máximo
400 mg/100 ml; cafeína: máximo 35 mg/100 ml; álcool etílico: máximo 0,5
ml/100 ml; inositol: máximo 20 mg/100 ml; clucoronolactona: máximo 250
mg/100 ml.
Além disso, as embalagens devem conter obrigatoriamente as seguintes
advertências, em destaque e em negrito: "Crianças, gestantes, nutrizes,
idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de
consumir o produto" e "Não é recomendado o consumo com bebida
alcoólica".
Segundo a Anvisa, os primeiros alertas se devem ao fato de o produto
ter uma “elevada quantidade de cafeína em sua formulação”. Já a
restrição à associação com álcool é feita, pois “pode potencializar os
efeitos da bebida alcoólica e fazer com que o usuário tenha um
julgamento errado sobre seu estado de embriaguez (tem a percepção de que
não está bêbado, mas os efeitos deletérios do consumo de álcool sobre a
coordenação motora continuam)”.
Mais vulneráveis
O cardiologista e médico do esporte Nabil Ghorayeb fecha a questão
dizendo que o problema está no uso indiscriminado dos energéticos sem
que se saiba dos riscos. “As pessoas não costumam ler os rótulos e, se
não tivesse qualquer tipo de perigo, não teriam advertências nas
embalagens dos produtos. O risco maior está na dose, principalmente para
quem tem sensibilidade à cafeína ou predisposição às arritmias ou faz
parte do grupo citado nas embalagens (crianças, idosos, nutrizes,
grávidas, com problemas de saúde)”.
Ghorayeb alerta para as pessoas ficarem atentas a sinais de maior
sensibilidade, como palidez, aceleração do coração, aumento da pressão,
etc.. “A intoxicação por cafeína é manifestada pela presença de
ansiedade, insônia, desconforto no estômago, tremores, taquicardia,
agitação e até raros casos de morte foram descritos na Austrália,
Irlanda e Suécia”, acrescenta Vacanti.
"Enganar" o sono
Para os pais, Ilana Pinsky recomenda que a informação é a maior arma
contra o problema. “É essencial conhecer o que é energético, suas
propriedades, o que é considerado um excesso de consumo. E conversar com
os filhos sobre isso, informar-se primeiro para depois informar o
filho”, aconselha a psicoterapeuta.
Ilana completa explicando que faz parte da característica da nossa
sociedade tentar burlar o que estamos sentindo e se faz isso de uma
maneira excessiva, o tempo todo, e não só na questão do álcool. Talvez
esta também possa ser a explicação para o consumo crescente de
energéticos, uma busca por “enganar” o sono, a timidez (no caso da
associação com o álcool) e o corpo, prolongando a sensação de diversão
na balada ou a malhação na academia.
Mas é preciso lembrar que o preço pode ser caro demais. Recentemente,
pediatras americanos anunciaram que, nos últimos anos, já foram
registrados mais de 2,5 mil casos de internações e atendimentos por
intoxicação por cafeína em menores de 19 anos. E já que essa associação é
prática comum e permitida, por enquanto não há outro jeito: quem deve
ficar alerta e moderar na dose é o consumidor!
Por Carla Prates
Especial para o UOL Ciência e Saúde